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Regras e Anvisa

Tabela de informação nutricional e %VD em suplementos: como ler sem se enganar

Por AuditaDose · Atualizado em 17/10/2026 · 11 min de leitura

Em suplemento, a tabela mostra a quantidade que o fabricante manda tomar por dia, e o %VD é essa quantidade dividida pelo valor diário de referência. Com essas duas ideias dá para conferir qualquer rótulo.

Imagens de Belven, QuartzoMax e Turbo Defense, três produtos cujas tabelas nutricionais comentamos

Resumo rápido

  • A porção da tabela de um suplemento é a quantidade diária recomendada pelo fabricante, por grupo populacional, e não uma cápsula. Para comparar produtos, converta tudo para “por dia”.
  • %VD é a quantidade na porção dividida pelo valor diário de referência (VDR), vezes 100. Dividindo a quantidade pelo percentual, você descobre qual referência o rótulo usou.
  • Um %VD acima de 100% não indica excesso nem benefício. O limite de segurança é o teor máximo da norma, e o percentual não diz se a dose é a dos estudos.
  • Compare tabela e página de vendas. Doses diferentes, unidades erradas e ingredientes que somem são sinais de rótulo mal revisado. Sem tabela legível, peça o rótulo antes de pagar.

A tabela de informação nutricional é o único trecho do rótulo que dá para comparar com número na mão. É também onde a página de vendas costuma ser mais vaga: a tabela some, vira uma imagem pequena ou mostra um percentual que assusta sem explicar de onde veio.

Este guia mostra como ler a tabela de um suplemento do começo ao fim: o que a porção significa, o que a regra manda constar, como o %VD é calculado e como perceber quando tabela e página de vendas não batem. Os exemplos vêm de avaliações do site. O texto é informativo e não substitui a orientação de médico ou nutricionista.

A porção da tabela é uma cápsula ou a dose do dia?

Em suplemento, a porção declarada é a quantidade diária recomendada pelo fabricante, e não uma cápsula. A regra vale para cada grupo populacional e faixa etária indicados no rótulo, segundo a Anvisa (art. 15 da RDC 243/2018, nas perguntas e respostas sobre suplementos).

Se o fabricante manda tomar duas cápsulas, a tabela traz os valores de duas cápsulas. É o caso do Belven, cuja tabela, publicada em imagem, usa uma porção de 1 g, equivalente a 2 cápsulas, com 30 porções por embalagem. O Turbo Defense segue o mesmo desenho: porção de 1 g, ou 2 cápsulas. Quando a recomendação varia para o mesmo grupo, como “uma a duas cápsulas ao dia”, a empresa pode escolher uma ou duas como porção, desde que os mínimos e os máximos da norma sejam respeitados nas duas hipóteses.

A consequência prática é simples. Ao comparar dois produtos, converta tudo para “por dia”. Dois rótulos com “200 mg” não entregam o mesmo se um deles define a porção como uma cápsula e o outro, como três.

O que a tabela de um suplemento é obrigada a listar?

O valor energético, os nutrientes de declaração obrigatória e todo nutriente, substância bioativa e enzima que o produto fornece por meio dos constituintes autorizados. A Anvisa lista como obrigatórios carboidratos, açúcares totais, açúcares adicionados, proteínas, gorduras totais, gorduras saturadas, gorduras trans, fibras alimentares e sódio.

Para substâncias bioativas e enzimas, as quantidades saem nas unidades previstas nos Anexos III e IV da IN 28/2018. Há três regras que ajudam a ler:

  • Em um suplemento de proteína, importa o teor final de proteína, seja qual for a mistura de fontes usada.
  • Vitaminas e minerais que chegam de forma indireta, como o cálcio do soro do leite, só podem ser declarados se a porção fornecer pelo menos 5% do valor diário.
  • Probióticos não entram na tabela nutricional. A Anvisa recomenda que a quantidade apareça junto da alegação ou da lista de ingredientes.

O teste é direto: se a página cita colágeno, resveratrol e ácido hialurônico, a tabela deveria trazer a quantidade de cada um. Quando só os nomes aparecem, a leitura que importa, a de dose, fica impossível. Foi o que encontramos no Fignar Gotas, cuja página mostra os ativos como seis ícones, sem miligramas, unidades internacionais ou percentual do valor diário.

O que é %VD e como ele é calculado?

%VD é o percentual do valor diário de referência (VDR) que a porção fornece. A conta é a quantidade na porção dividida pelo VDR, vezes 100. Em suplementos, o VDR vem do Anexo VIII da IN 75/2020 e muda conforme o grupo populacional indicado no rótulo.

Algumas regras de formato, segundo a Anvisa: quando não existe VDR para o item, o espaço do %VD fica vazio; o rodapé deve trazer “*Percentual de valores diários fornecidos pela porção”; e a frase sobre dieta de 2.000 kcal, comum em rótulos de alimentos, não permanece na tabela de suplementos. Se as unidades da IN 75/2020 e da IN 28/2018 forem diferentes, converte-se antes de calcular.

O truque útil para o leitor é o caminho inverso: dividir a quantidade pelo percentual revela qual referência o rótulo usou. A tabela abaixo faz isso com números que lemos nas páginas de dois produtos avaliados.

ProdutoIngredienteQuantidade na porção%VD declaradoReferência implícita (conta nossa)
BelvenCromo250 mcg714%cerca de 35 mcg
BelvenVitamina B129 mcg375%cerca de 2,4 mcg
BelvenVitamina D350 mcg (2.000 UI)333%cerca de 15 mcg
Turbo DefenseVitamina C200 mg200%100 mg
Turbo DefenseSelênio11 mcg18%cerca de 60 mcg

As referências batem com as que citamos nas avaliações desses produtos, como os 35 mcg do cromo e os 60 mcg do selênio. Se uma conta dessas não fecha, o erro pode estar no percentual, na quantidade ou na unidade, e vale perguntar ao vendedor.

Um %VD de 714% ou 333% significa excesso?

Não por si só. Passar de 100% do valor diário diz que a porção fornece mais que a referência, mas não diz se há risco nem se há benefício. O que limita o produto é o teor máximo do Anexo IV da IN 28/2018: segundo a Anvisa, o produto exposto à venda não pode ultrapassar essas quantidades máximas, e a tolerância de rotulagem não as afasta.

O cromo é o exemplo clássico. No Violine Shape, os 250 mcg aparecem como 714% do valor diário, o que assusta à primeira vista. Na nossa avaliação, o VDR do cromo é muito baixo, 250 mcg é uma dose comum em suplementos de cromo, e a revisão Cochrane sobre o mineral aponta efeito pequeno ou incerto sobre o peso. O percentual alto era um efeito da referência baixa, e não um sinal de dose perigosa nem de dose eficaz.

O inverso também vale. Um percentual confortável não prova que a dose é a dos estudos. O Beauty Hair, segundo a descrição do produtor, traz 45 mcg de biotina, ou 150% do valor diário. É uma dose de dieta, bem abaixo dos 2.500 a 10.000 mcg que os estudos de cabelo e unhas costumam usar. Percentual sozinho não diz nada sobre eficácia.

Um cuidado de segurança: some o que você já toma. Quem usa multivitamínico, vitamina D e outros produtos ao mesmo tempo pode acumular mais do que imagina. Converse com médico ou nutricionista, em especial se estiver grávida, amamentando, usar medicamento contínuo ou tiver doença crônica.

Como saber se a tabela e a página de vendas contam a mesma história?

Compare três coisas: os ingredientes citados com os da tabela, as doses do texto com as da tabela e as unidades e percentuais com a conta que você mesmo faz. Divergência entre elas é o sinal mais forte de rótulo mal revisado, e já encontramos casos assim:

  • Beauty Hair: a página de vendas diz 2.500 mcg de biotina e 15 mg de zinco por cápsula, enquanto a descrição do produtor lista 45 mcg e 7 mg. A diferença de biotina é de cerca de 55 vezes. A página ainda cita colágeno, que não aparece na composição do produtor.
  • QuartzoMax: a tabela é completa, com dose dos dez nutrientes, o que conta a favor. Mas escreve a biotina em mg, o que seria mil vezes a dose real, e mostra 60% do valor diário para 240 mcg de ácido pantotênico, número que não bate.
  • Belven: a lista de ingredientes escreve “Quercetina (Ubiquinona)”, mistura de dois compostos diferentes, e a berberina aparece nas embalagens de 3, 6 e 12 potes, mas não na tabela nutricional.

Nenhum desses erros prova má-fé. Mas mostram por que a tabela deve ser lida, e não apenas vista. Um rótulo confuso é um motivo para pedir esclarecimento antes de pagar.

Conta de 30 segundos

Pegue a quantidade da porção e divida pelo %VD escrito ao lado. O resultado é a referência que o rótulo usou. Depois multiplique a quantidade pelo número de porções que você toma por dia. Se algo não fechar, fotografe a tabela e peça explicação por escrito.

O que fazer quando a tabela está em imagem, incompleta ou ausente?

Peça o rótulo legível, por escrito, antes de pagar. Sem tabela, a dose não pode ser conferida, e isso pesa contra o produto na nota de transparência do nosso método de avaliação. Tabela em imagem não é erro por si só: o Belven e o Livit a publicam assim e foram avaliados. Mas imagem não pode ser pesquisada nem lida por quem usa leitor de tela, e costuma sair pequena e borrada.

Se a tabela não existir, dois caminhos ajudam. O primeiro é pedir ao atendimento uma foto nítida do rótulo do pote real, com lote e validade. O segundo é, ao receber o produto, conferir o pote com a página: ingredientes, doses, número de notificação e a frase “Alimento notificado na Anvisa”. Se não bater, a garantia e o direito de arrependimento existem para isso.

Fique atento também ao “blend” que lista ingredientes sem separar as quantidades. Quando só o total da mistura aparece, não dá para saber quanto há de cada ativo, tema que tratamos em blend proprietário e ingrediente sem dose.

A tabela garante que o pote tem o que ela diz?

Não. A tabela é uma declaração do fabricante, e o que a norma prevê é a fiscalização, com margem de tolerância. A Anvisa explica que a tolerância do art. 33 da RDC 429/2020 se aplica aos suplementos apenas para avaliar se os valores declarados estão corretos, e não elimina a obrigação de respeitar os limites máximos do Anexo IV.

O fabricante, por sua vez, deve garantir que o produto mantenha suas características até o fim da validade, por meio de estudos de estabilidade e controles de qualidade (art. 10 da RDC 243/2018). A agência admite ainda a sobredosagem na fabricação, para compensar perdas do processo, desde que o produto vendido fique dentro do limite máximo e que a prática tenha respaldo em estudos.

Ou seja: a tabela diz o que o fabricante afirma, e quem pode mostrar o que há de fato num lote é o laudo de análise. Veja como ler esse documento em laudo de análise (COA) e testes de laboratório.

Como usar a tabela para comparar dois produtos?

Passe tudo para quantidade por dia, compare só produtos com o mesmo ativo na mesma forma química e divida o preço pelos dias de uso. A tabela é o que permite fazer essa conta com segurança, e nossa calculadora de custo por dose faz a parte aritmética.

Cuidado com a comparação direta de preço por dia. O QuartzoMax sai de R$ 1,11 a R$ 1,83 por dia e o Belven, de R$ 2,78 a R$ 3,97, mas são fórmulas diferentes, com ativos diferentes. O preço por dia diz quanto custa o hábito. Quanto custa a dose do ativo que você quer só aparece quando a tabela mostra a quantidade e você divide o preço por ela.

No nosso guia como ler o rótulo de um suplemento, o mesmo raciocínio aparece passo a passo, com a leitura da lista de ingredientes, da porção e dos avisos.

Qual é o checklist para ler a tabela em dois minutos?

Oito perguntas, em ordem. Se duas ou mais ficarem sem resposta, trate o produto com cautela.

  1. A tabela existe e está legível, ou é uma imagem que dá para ampliar?
  2. A porção é a quantidade diária que o fabricante recomenda?
  3. Todos os ingredientes que a página destaca aparecem com quantidade?
  4. As unidades fazem sentido (mg, mcg, g)? Um erro de unidade vira diferença de mil vezes.
  5. A conta quantidade ÷ %VD dá uma referência coerente?
  6. A tabela e o texto da página dizem a mesma coisa?
  7. Há número de notificação, CNPJ e lote visíveis, no produto ou no atendimento?
  8. O preço por dia, calculado com a porção real, cabe no seu orçamento?

Lembre que a tabela só informa, não recomenda. Se você tem dúvida sobre dose, interação com remédios ou necessidade de suplementar, o caminho é o médico ou o nutricionista, e não o percentual do rótulo. Para o panorama completo das fontes, consulte também o portal da Anvisa.

Perguntas frequentes

A porção da tabela de um suplemento é uma cápsula?

Não necessariamente. A porção é a quantidade diária recomendada pelo fabricante para cada grupo populacional indicado. Se a recomendação for tomar duas cápsulas, a tabela traz os valores das duas.

O que significa %VD em suplementos?

É o percentual do valor diário de referência fornecido pela porção. Em suplementos, as referências vêm do Anexo VIII da IN 75/2020, por grupo populacional. Quando não há referência para um item, o espaço do %VD fica vazio.

%VD acima de 100% é perigoso?

Não por si só. O percentual compara a porção com uma referência, e algumas referências são baixas. O limite de segurança é o teor máximo do Anexo IV da IN 28/2018. Some o que você já toma e converse com médico ou nutricionista.

Todo suplemento precisa informar %VD?

Segundo a Anvisa, sim: o %VD deve ser declarado para cada grupo populacional indicado no rótulo. Quando não existe valor de referência definido para um nutriente ou substância, o campo permanece vazio.

A tabela garante que o produto tem a dose declarada?

Não. A tabela é declaração do fabricante, sujeita a fiscalização com tolerância. Quem mostra o que há em um lote é o laudo de análise, que você pode pedir ao vendedor.

Avaliações citadas neste artigo

Fontes

Conteúdo informativo. Não substitui orientação de médico ou nutricionista. Revisamos este texto quando as regras mudam; confira sempre a norma vigente no site do órgão citado.

Em resumo

Em suplemento, a tabela mostra a quantidade que o fabricante manda tomar por dia, e o %VD é essa quantidade dividida pelo valor diário de referência. Com essas duas ideias dá para conferir qualquer rótulo.

  • A porção da tabela de um suplemento é a quantidade diária recomendada pelo fabricante, por grupo populacional, e não uma cápsula. Para comparar produtos, converta tudo para “por dia”.
  • %VD é a quantidade na porção dividida pelo valor diário de referência (VDR), vezes 100. Dividindo a quantidade pelo percentual, você descobre qual referência o rótulo usou.
  • Um %VD acima de 100% não indica excesso nem benefício. O limite de segurança é o teor máximo da norma, e o percentual não diz se a dose é a dos estudos.
  • Compare tabela e página de vendas. Doses diferentes, unidades erradas e ingredientes que somem são sinais de rótulo mal revisado. Sem tabela legível, peça o rótulo antes de pagar.