Valeriana, passiflora e camomila: o que cada planta tem de estudo, de risco e de regra no Brasil
As três plantas são antigas no uso popular, mas a pesquisa sobre sono e ansiedade é pequena e mista. Em suplemento, o que decide é a dose, o tipo de extrato e a regra sob a qual o produto é vendido, e as páginas costumam não mostrar nada disso.

Resumo rápido
- Valeriana: o centro de saúde complementar dos EUA (NCCIH) diz que a evidência para sono é inconsistente e que a academia de medicina do sono recomendou contra seu uso na insônia crônica.
- Passiflora: pesquisa pequena sugere algum efeito em ansiedade e sono, mas não é conclusivo, e a mesma fonte diz que não deve ser usada na gravidez.
- Camomila: evidência para sono é muito limitada; reações alérgicas são possíveis, principalmente em quem tem alergia a plantas da mesma família.
- Nas avaliações do site, as plantas aparecem em fórmulas sem dose declarada; sem dose e sem tipo de extrato, o efeito é imprevisível e o produto não pode ser comparado a estudo nenhum.
Calmante natural é um dos rótulos que mais vendem em suplemento. A promessa é simples: uma planta conhecida, sem a fama de remédio, para acalmar a cabeça e ajudar a dormir. A realidade é mais complicada, porque valeriana, passiflora e camomila têm usos tradicionais fortes, estudos pequenos e riscos que o cartaz da página raramente menciona.
Este artigo reúne o que o NCCIH (centro de saúde complementar do governo dos Estados Unidos) diz sobre cada planta, o que as avaliações do AuditaDose encontraram em fórmulas que as usam e como ler um rótulo. O texto é informativo e não substitui consulta com médico ou nutricionista. Insônia que dura semanas e ansiedade que atrapalha a vida pedem avaliação profissional, não só um frasco.
O que a pesquisa diz sobre a valeriana?
A evidência é inconsistente. O NCCIH informa que a Academia Americana de Medicina do Sono recomendou, em 2017, contra o uso de valeriana para insônia crônica em adultos.
A mesma fonte descreve a planta como geralmente considerada segura para a maioria dos adultos em uso de curto prazo, com doses de 300 a 600 mg por dia por até seis semanas nos estudos citados. A segurança no uso prolongado é desconhecida. Esses números são faixas de estudo atribuídas à fonte, e não uma orientação de dose para você. Efeitos descritos incluem dor de cabeça, desconforto no estômago, sensação de cabeça pesada, excitação, inquietação e sonhos vívidos. Parar de repente depois de uso longo pode causar ansiedade, irritabilidade e insônia. Houve relatos raros de lesão no fígado, mais comuns quando a valeriana foi combinada com outras ervas.
"Estudos mostram" não quer dizer que o produto da página funciona. O estudo usou um extrato específico, numa dose específica, em um grupo específico. Se a página não diz qual extrato e quanta quantidade tem, o resultado do estudo não se aplica a ela.
A passiflora ajuda na ansiedade e no sono?
Pode haver algum efeito, mas a pesquisa é pequena e as conclusões não são definitivas. O NCCIH registra que pouca pesquisa sugere redução de sintomas de ansiedade e aumento do tempo total de sono em adultos com insônia, com resultados mistos para pegar no sono e continuar dormindo.
A fonte também faz um alerta importante: a passiflora pode interagir com alguns anestésicos, então quem tem cirurgia marcada deve avisar o médico sobre o uso nas semanas anteriores. E ela diz que a planta "não deve ser usada na gravidez", porque pode induzir contrações do útero. Sobre amamentação, pouco se sabe. Em termos de segurança, o chá pode ser seguro por até sete noites e o extrato diário por até oito semanas, segundo as faixas que a fonte descreve. Possíveis efeitos são sonolência, tontura e confusão.
Nas avaliações do site, a passiflora aparece de passagem. No AbstinPRO, o extrato de maracujá (Passiflora) é descrito como calmante leve de uso tradicional, com estudos pequenos de ansiedade que usam extratos padronizados, e a avaliação aponta que, sem dose e sem padronização, o efeito do produto é imprevisível.
A camomila faz dormir melhor?
A evidência para sono é muito limitada. O NCCIH cita que o único estudo de insônia incluído numa revisão de 2019 não encontrou benefício, e que estudos preliminares sugerem possível ajuda em ansiedade generalizada, também em caráter preliminar.
Em chá ou comida, a camomila é considerada provavelmente segura. Os efeitos adversos são incomuns e incluem náusea, tontura e reações alérgicas, e houve casos raros e graves, como anafilaxia. Quem tem alergia a ambrosia, crisântemo, calêndula ou margarida tem mais chance de reagir. Há também sinal preliminar de efeito parecido com o do estrogênio, que pode reduzir o efeito de pílula anticoncepcional e pode piorar condições sensíveis a estrogênio. Existem interações relatadas com alguns remédios metabolizados no fígado e com varfarina. Sobre uso na gravidez e amamentação, a compreensão de segurança é pobre. Por isso, quem toma remédio de uso contínuo deve conversar com o médico, mesmo sendo "só um chá" em cápsula.
Como essas plantas aparecem nas avaliações do site?
Quase sempre dentro de fórmulas com muitos ingredientes e nenhuma dose. A valeriana, em especial, aparece em produtos de emagrecimento e de menopausa, não só em produtos de sono, e isso muda a pergunta: por que há um calmante numa cápsula para emagrecer?
Veja o que registramos:
| Produto | Planta calmante citada | Dose na página | Preço e garantia |
|---|---|---|---|
| Restart Mulher | Valeriana e mulungu, entre 11 plantas | Nenhuma | R$ 297 a R$ 697 (planos de 3, 6 e 12 meses); 7 dias |
| VitaSlim Oficial | Valeriana, junto de psyllium, spirulina e glucomannan | Nenhuma | Frasco com 30 cápsulas, 1 por dia; 7 dias |
| AbstinPRO | Passiflora (extrato de maracujá) | Nenhuma | R$ 197 a R$ 697; garantia não confirmada na página oficial |
| Zen Caps | Nenhuma (5-HTP, melatonina e vitamina B6) | Nenhuma | R$ 149,99 a R$ 429,99; 30 dias com condições pouco claras |
A linha do Zen Caps está ali de propósito, como contraste: um produto de sono sem as três plantas, que usa 5-HTP e melatonina, e que também não informa nenhuma dose. O problema é o mesmo, a falta de números, quer a fórmula seja de planta ou de substância isolada.
Valeriana em produto de emagrecimento faz sentido?
Do ponto de vista de marketing, sim: a ideia é que o calmante reduza a ansiedade que leva a comer. Do ponto de vista da pesquisa, é uma ligação frágil, e a avaliação do VitaSlim aponta o problema logo de cara.
A página do VitaSlim descreve a valeriana como redutora de pressão arterial e de batimentos, algo que não está estabelecido, e ao mesmo tempo proíbe o uso por quem tem problema cardíaco, o que é uma contradição interna. A avaliação lembra também que valeriana pode causar sonolência, e que uma cápsula que mistura fibra e calmante não é o que se espera de um produto que promete acelerar o metabolismo. No Restart Mulher, a valeriana e o mulungu são descritos como usados para relaxar e dormir, com evidência modesta e efeito mais plausível em sono leve do que em insônia intensa, e a avaliação alerta que somam efeito a calmantes e sedativos, com risco de sonolência e queda de atenção ao dirigir.
Ao ver uma planta calmante numa fórmula que não é de sono, o melhor é perguntar qual é o papel dela e em que dose. Se a página não responde, o ingrediente está ali pela lista, não pela função.
Valeriana é suplemento ou fitoterápico?
Pode ser vendida de formas diferentes, e as regras mudam conforme a forma. Fitoterápico é um medicamento feito de planta, com regras próprias de registro ou notificação, enquanto suplemento alimentar com planta segue outra regulamentação, com lista de constituintes autorizados.
Isso importa porque a promessa permitida muda. Um fitoterápico registrado pode indicar uso para um sintoma, dentro do que foi aprovado. Um suplemento alimentar não pode prometer tratar ansiedade ou insônia. O artigo fitoterápico, chás e suplementos: diferença de regras explica essa separação, e o de constituintes autorizados mostra como consultar. Como as normas mudam, confira a versão vigente no site da Anvisa antes de confiar em qualquer frase da página.
Na prática, quando uma página de suplemento diz que "trata ansiedade" ou "cura a insônia", o texto já ultrapassa o que o produto pode prometer. Foi o caso do Ansiegate, cuja avaliação registra a promessa de tratar ansiedade, a melatonina sem dose e a ausência de qualquer citação para os estudos mencionados.
Quem deve ter cuidado extra com essas plantas?
Gestantes, lactantes, crianças, quem tem cirurgia marcada e quem usa remédio de uso contínuo. Esses grupos devem falar com o médico antes de tomar qualquer uma das três, em qualquer forma.
Os pontos que as fontes destacam: passiflora não deve ser usada na gravidez; a valeriana tem pouca informação de segurança na gestação e na amamentação; a camomila tem segurança pouco compreendida nesses períodos e possível interação com pílula, varfarina e remédios do fígado. A soma com álcool, calmantes e remédios para dormir é outro ponto: o efeito sedativo pode se somar, com sonolência e queda de atenção. Motoristas e quem opera máquinas devem ter atenção redobrada até saber como reagem.
Outro ponto é a suspensão: parar de repente a valeriana depois de uso longo pode causar sintomas, segundo o NCCIH. E nunca interrompa por conta própria um remédio prescrito para dormir ou para ansiedade porque comprou um calmante natural. Se a página sugere isso, é sinal de alerta. O artigo interação entre suplementos e medicamentos trata do assunto em geral.
Chá, tintura ou cápsula: a forma muda o que você toma?
Muda bastante, e é uma das razões pelas quais comparar produtos é difícil. Um saquinho de chá entrega pouca quantidade de planta e uma boa parte do que se dissolve na água quente. Uma cápsula de extrato seco concentra mais, e uma tintura depende do álcool e da proporção usada na preparação.
O NCCIH, por exemplo, trata a camomila em chá ou alimento como provavelmente segura, e o uso medicinal por via oral como possivelmente seguro no curto prazo. Para a passiflora, a mesma fonte distingue o chá, por até sete noites, do extrato diário, por até oito semanas. Ou seja, a forma entra na conta da segurança. Quando um produto mistura três plantas num extrato sem dose, ele junta as incertezas das três e remove o único dado que ajudaria: a quantidade.
Outro cuidado vale para quem pensa em "uma cápsula dessas mais um chá antes de dormir". Somar formas é somar doses, e a soma sedativa não é intuitiva. Se a ideia é testar uma planta, o caminho mais prudente é conversar com o médico, escolher uma forma só, com dose clara, e observar como o corpo reage, em vez de empilhar produtos.
Que resultado é razoável esperar?
Um efeito discreto, que varia de pessoa para pessoa, e que não substitui higiene do sono nem tratamento quando há um quadro de ansiedade ou insônia. Nenhuma das três plantas tem, nas fontes consultadas, evidência forte e consistente para essas condições.
Hábitos pesam mais do que o frasco: horário regular para dormir, menos telas e cafeína à noite, quarto escuro e movimento durante o dia. Se a insônia persiste por semanas, se há ronco alto com pausas na respiração, tristeza intensa ou crises de ansiedade, o caminho é avaliação médica, porque a causa pode ser outra e o calmante só mascara o sintoma. As promessas de "resultado em poucos dias" ou "fim da ansiedade" que algumas páginas fazem não têm respaldo nas fontes que consultamos.
O que conferir no rótulo antes de comprar?
Cinco coisas: nome científico da planta, parte usada (flor, raiz, folha), tipo de extrato com a padronização, quantidade por cápsula e advertências. Sem essas informações, você compra um nome, não um produto comparável.
- Nome científico: valeriana (Valeriana officinalis), passiflora (Passiflora incarnata), camomila (Matricaria chamomilla ou Chamomilla recutita). Se só aparece o nome popular, desconfie.
- Parte da planta e extrato: raiz, flor, folha; extrato seco, tintura ou pó. A dose de extrato não é a mesma de pó.
- Quantidade por cápsula e por dia: em mg, com a porção definida. Fórmulas com onze plantas e nenhuma dose, como o Restart Mulher, não permitem conferir nada.
- Advertências: gestação, amamentação, crianças, remédios, direção de veículos.
- Empresa: CNPJ, responsável técnico e canal de contato visíveis.
Compare também o custo real por dia, não só o preço do frasco, com a calculadora de custo por dose. Para entender como o AuditaDose faz essa conferência, veja como avaliamos e a página de guias. Se o assunto é dormir melhor, o artigo suplemento para dormir: o que conferir complementa este. Em dúvida, uma consulta resolve mais do que três frascos.
Perguntas frequentes
Valeriana ajuda a dormir?
A evidência é inconsistente. Segundo o NCCIH, a Academia Americana de Medicina do Sono recomendou em 2017 contra o uso de valeriana para insônia crônica em adultos. Quem tem dificuldade para dormir por semanas deve procurar avaliação médica.
Grávida pode tomar passiflora, valeriana ou camomila?
Converse com o médico ou obstetra antes. O NCCIH diz que a passiflora não deve ser usada na gravidez por poder induzir contrações do útero, e que para valeriana e camomila a segurança nesse período é pouco conhecida.
Posso tomar calmante natural junto com remédio para dormir?
Não decida sozinho. Valeriana e passiflora podem somar efeito sedativo, e a camomila tem interações relatadas com alguns remédios. Fale com o médico ou farmacêutico antes e nunca interrompa um remédio prescrito por conta própria.
Suplemento com valeriana pode dizer que trata ansiedade?
Não deveria. Suplemento alimentar não pode prometer tratar doença. Alegações desse tipo ficam para medicamentos, incluindo fitoterápicos registrados. Confira a regra vigente no site da Anvisa.
O que significa a página não informar a dose da planta?
Significa que você não consegue comparar o produto com nenhum estudo nem saber se a quantidade é muito pequena ou próxima de um limite. Peça o rótulo completo ao vendedor antes de comprar ou prefira um produto que mostre a dose.
Avaliações citadas neste artigo

Restart Mulher
Onze plantas para ondas de calor, sono e humor na menopausa, sem dose declarada, com cimicífuga na lista e sem aviso de segurança na página.
Saiba mais
VitaSlim Oficial
a partir de R$ 4,55/diaDuas fórmulas de emagrecimento em cápsulas, uma com fibras e valeriana e outra com laranja-amarga, garcínia e matcha, ambas sem dose declarada, com promessas de perda de peso que nenhum estudo citado sustenta.
Saiba mais
AbstinPRO (Abstiny)
a partir de R$ 1,94/diaGotas vendidas para ajudar a largar cigarro, álcool e outras drogas: composição sem nenhuma dose, empresa sem nome e uma marca Abstiny que aparece em lista de produtos punidos pela Anvisa.
Saiba mais
Zen Caps
a partir de R$ 2,39/diaCápsula noturna com 5-HTP, melatonina, magnésio, vitamina B6 e ácido fólico, mas sem uma única dose escrita na página, e com promessa de apoiar o desmame de remédios controlados.
Saiba mais
Ansiegate (60 cápsulas)
Um suplemento de melatonina, triptofano, magnésio e vitamina D3 que diz "tratar a ansiedade" e ter "resultado garantido", sem informar a dose de nenhum ingrediente.
Saiba maisFontes
Conteúdo informativo. Não substitui orientação de médico ou nutricionista. Revisamos este texto quando as regras mudam; confira sempre a norma vigente no site do órgão citado.
Em resumo
As três plantas são antigas no uso popular, mas a pesquisa sobre sono e ansiedade é pequena e mista. Em suplemento, o que decide é a dose, o tipo de extrato e a regra sob a qual o produto é vendido, e as páginas costumam não mostrar nada disso.
- Valeriana: o centro de saúde complementar dos EUA (NCCIH) diz que a evidência para sono é inconsistente e que a academia de medicina do sono recomendou contra seu uso na insônia crônica.
- Passiflora: pesquisa pequena sugere algum efeito em ansiedade e sono, mas não é conclusivo, e a mesma fonte diz que não deve ser usada na gravidez.
- Camomila: evidência para sono é muito limitada; reações alérgicas são possíveis, principalmente em quem tem alergia a plantas da mesma família.
- Nas avaliações do site, as plantas aparecem em fórmulas sem dose declarada; sem dose e sem tipo de extrato, o efeito é imprevisível e o produto não pode ser comparado a estudo nenhum.
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